Eis que decidi fazer uma breve abordagem sobre um dos mais antigos acontecimentos envolvendo a raça humana e nossa indisfarçável vocação gregária ao longo desta multimilenar aventura no orbe terrestre. Não estou comprometido com outra entidade além de meu livre-arbítrio. Destarte a virtual renúncia por parte do eventual e atento leitor às minhas abordagens, certamente não me fará desapontado, nem se constituirá em obstáculo para que exponha um tanto do que minha consciência percebe e a razão sanciona. Uma realidade de ontem e outra de hoje. Ontem adolescente, estudante e trabalhador como auxiliar de Boticário. Lá pelos anos 60/61 na Cacequi da ainda buliçosa Estação Ferroviária, e dos dourados dias de minha adolescência. Duas dúzias de ruas, umas cortando outras lembrando um tabuleiro de xadrez;algumas centrais pavimentadas com pedras de basalto, irregulares. As demais alternando-se em areia e terra vermelha. Casario de alvenaria simples, em tijolos e telhas de barro comuns e pintura pouco conservada. Quando pintadas. No centro da cidade raras moradias diferenciadas. Na periferia, onde eu morava, a maioria das casas era simples, de tábuas e cobertura das mesmas telhas, às vezes folhas de flandres. Aqui o carnaval era um acontecimento social. Blocos carnavalescos e foliões previamente selecionados e organizados desfilavam na passarela armada no centro da cidade, em frente ao tradicional clube Comercial. Terminado o desfile os foliões se dirigiam aos seus clubes de origem, para receberem a Rainha e sua corte e, assim dar início aos bailes de Carnaval. Outro era o Clube Ferroviário Apolo, da família ferroviária. Tinha ainda o Club Recreativo Sete de Setembro, pertencente aos 'pretos', e cuja entrada só era permitida a quem fosse mui bem recomendado. O CTG "General Osório" não promovia carnaval. Os clubes eram muito bem cuidados e administrados pela 'fina flor' da sociedade local. Um folião visitante ou desconhecido que se aventurasse com máscara ou dominó era 'democraticamente' convidado a comparecer perante o Diretor Social para ser identificado e ter assegurada sua participação festiva. Os salões desses clubes, feérica e alusivamente ornamentados eram prévia e literalmente lotados por seus sócios efetivos, ou convidados, que ocupavam seus lugares em mesas, muitas delas cativas. Os blocos de foliões, incluindo alguns já bem 'experimentados' na arte de viver e se divertir, adentravam os salões sob copiosa chuva dos 'lança-perfumes', 'confetis' e 'serpentinas', os aplausos dos demais convivas festeiros e ensurdecedor foguetório. O Conjunto 'Regional do Gessi' acordava os foliões que a seguir eram febrilmente exortados pelas canções dos consagrados Carlos Galhardo, Lupicínio Rodrigues, Zé Keti, Dircinha e Linda Batista, Dalva de Oliveira, Jamelão , Noite Ilustrada e outros 'rouxinóis', até às seis da manhã. Algumas vezes eu saía do Clube Comercial direto pra farmácia. Passava água fria na cara e já estava no batente. Ao anoitecer os jovens foliões costumavam promover 'assaltos' às residências abastadas onde geralmente eram recepcionados com 'geladeiras convenientemente abastecidas' e algumas foliãs já com olhar de 'querendonas'. Não era raro mais tarde ver um par jovem 'misturado'- formado por um rapaz de 'um bloco azul' pescoceando uma jovem 'odalisca' vestida em 'plumas e paetês' vermelhos. Muitas vezes eram jovens parentes ou da família de altos funcionários ferroviários ou de fazendeiros. Estudavam em Santa Maria, Pelotas ou Porto Alegre mas brincavam o carnaval na acolhedora Cacequi. Meio século não conseguiu apagar a imagem do querido par de companheiros JOSÉ HAMILTON ACOSTA/JUSSARA MARIA GAUTO que, mercê suas simpatias, se tornou o centro das atenções em nossa "TURMA DO BARULHO", que naquele carnaval seria eleito o 'bloco mais popular'. O amigo José Hamiltom, é o mesmo que, alguns anos depois, ajudaria seus colegas médicos a me remendarem e salvarem a vida em Santa Maria, quando me rebentei num acidente automobilístico. Aliás este fato já relatei antes. A Jussara, é hoje consagrada advogada, militando na política onde já foi vereadora no Legislativo de Porto Alegre. Saudosismo à parte, vale lembrar que não conhecíamos 'drogas', exceto o 'lança-perfumes' com que os mais 'afoitos' costumavam embeber seus lenços, numa rápida fugida ao 'WC'. Outros se 'encharcavam' de tal modo que depois não aguentavam a 'Cuba Libre'( mistura de coca cola, rum, rodela de limão e gelo)que era o 'combustível' dos rapazes. Mais tarde, quando Fidel Castro assumiu o controle de Cuba, o rum foi substituído por cachaça e o 'combustível' passou a ser chamado "samba". As moças ainda bebiam refrigerantes, na maioria das vezes pagos pelos rapazes!. Os mais 'treinados', ou da 'velha guarda', geralmente bebiam Whisky com gelo, soda tônica ou mineral. Anos depois o uso de lança perfumes foi proscrito e a venda proibida. Aí a moçada se achou no direito de enveredar para as Anfetaminas e o LSD que já eram sucesso no exterior e divulgados na mídia. Canabis sativa, Cola de sapateiro, e outras drogas malditas viriam a seguir infernizar a vida dos jovens menos avisados que, hoje não precisam mais de pretextos para se intoxicar mesmo fora do Carnaval. A meu ver o Festival de WOODSTOK, em agosto de 1969, se constituiu num divisor de águas nos hábitos que medrariam na sociedade brasileira dali em diante. Ah os Velhos Carnavais, que saudosos tempos que não voltam mais!. Rimou!, que legal!. E aos domingos, então!, assistir a missa das dez horas era sagrado. Na igreja mesmo já éramos avisados que haveria 'quermesse' na Escola Normal Regional 'NOTRE DAME', à tarde. Aí a rapaziada se concentrava em frente ao 'barzinho' que não vendia nada 'espirituoso'. Além das pescarias ocorriam dedicatórias musicais e as arbitrárias 'prisões', em que o rapaz tinha que enfiar a mão no bolso pra libertar sua normalista 'protegida'. Não faltavam os 'pombos-correios' com mensagens 'chorosas' entregues mediante determinada 'taxa' desembolsada pela 'vítima' previamente 'investigada'. Ao anoitecer, as 'frerinhas' agradeciam a presença e a rapaziada se retirava com os jovens corações adocicados, tentando recordar os grandes sucessos do Anísio Silva. A maior inspiração vinha mesmo com "Minha Linda Normalista" do imortal Nelson Gonçalves. Era o lenitivo mais eficaz para muitos adolescentes daqueles belos anos. Altemar Dutra, Cely e Tony Campelo, Sérgio Murilo e Marcio Greik também inspiraram muitos jovens daquela época. Provocaram 'borracheiras' também.
No domingo de carnaval programava-se 'pic-nic' na praia do rio Cacequi. Outras vezes, no forte do verão, explorava-se a mata ciliar nativa desde a confluência do rio Cacequi com o Santa Maria até o ponto onde este rio se lança no Ibicui, bem depois da bela 'praia dos dourados', à altura da ponte do Entroncamento. Chegávamos aí em excursões organizadas pelos funcionários administradores da Estação Ferroviária local. Outra alternativa para escapar das escaldantes areias cacequienses era buscar as praias do rio ibicui, próximas do outrora porto fluvial, onde até aqueles dias existia o 'esqueleto' de um antigo vapor que fizera, em outros tempos, a linha regular entre Cacequi e Uruguaiana. A chegada dos trens fez desativar o transporte fluvial. Terminadas as férias de verão nos limitávamos aos passatempos triviais. Bingos dançantes no Comercial, ou Jogos de bolão e ping-pong. Vez que outra uma famosa orquestra procedente da região do Rio da Prata chegava de trem, vindo de Uruguaiana ou de Livramento, e animava um baile de 'arromba' que jamais seria esquecido. No próximo trem seguia para Santa Maria e outras partes de nosso Estado e País. Donato Racciatti, Cassino de Sevilha, Pedro Borgo, Suspiro de Espanha, e outros ainda são recordados. Considerado 'bom menino', estudioso, trabalhador e empregado, eu despertava o interesse entre algumas moçoilas. Quando quis mostrar serviço já estava na hora e fui convocado para o serviço militar. Ao entardecer de algum domingo ou feriado, saíamos a caminhar, conversando ou cantarolando, pela campina florida próxima e ao longo da via férrea. Grupos de quatro ou cinco moçoilas, irmãs e primas entre si, e eu de "bem-dito-o fruto", com a cabeça repleta de caraminholas. Nunca fui chegado no futebol. Brasil, Humaitá, Aimoré, Gremio da Cooperativa Ferroviária e Independente eram os times de futebol que disputavam o campeonato citadino, na Cacequi daqueles dias. Hoje, decorrido um pouco mais do que meio século e já me encontro enredado nas circunstâncias que me permitem examinar muitas das conseqüências do maior folguedo popular do mundo. O Carnaval brasileiro, pretendido por muitos como 'o maior espetáculo da face da Terra'. É claro que não tenho a mesma motivação dos dezoito anos para avaliar esse festejo. Minha consciência não melhorou nem piorou. Está amadurecida apenas. Às luzes do modernismo contemporâneo nossa percepção haverá de adquirir outras e mais compatíveis nuances. Assim é que a ilusão, natural e necessariamente, terá se esvaecido graças a uma gradativa conscientização espiritual. Até os sessenta e cinco anos trabalhei em média doze horas diárias; às vezes mais. Aos domingos e feriados a jornada era reduzida para oito ou dez horas. Raras vezes tirei férias, que à época ainda eram de vinte dias. Nos quase vinte anos em que realizei análises clínicas, por inúmeras vezes fui solicitado a atender urgências noturnas nos fins-de-semana e feriados, mesmo pelos convênios. Em determinadas ocasiões, sob uma carga tal de tensão psicológica, decidia no meio da noite, ir tirar uma 'soneca' em casa. Por vezes o sono não se apresentava e o remédio era retornar ao trabalho. Não podia deixar acumular serviço que poderia comprometer a inesperada demanda por resgate à saúde cuja ameaça não escolhe hora para bater em nossa porta. A prudência até nos alerta, invariavelmente creio, mas por invigilância nos tornamos vítimas. O tempo se deixou perceber e com ele os inevitáveis frutos das semeaduras da juventude. A idade chegou, e com ela inexoravelmente o declínio da saúde. A aposentadoria por tempo de serviço e a posterior migração para a farmácia comunitária se me afigurou como solução. O quotidiano mostrar-me-ia a dimensão do equívoco. Quando se exerce uma profissão voltada diretamente para a saúde pública jamais estamos livres de ser exigidos em nossos préstimos. A consciência profissional deve estar sempre vigilante. Mesmo num baile de carnaval, ou dois!; ou os três dias. Isto se o vivente tiver fôlego, como quando eu era jovem. Sou suspeito. Participei de poucos carnavais. Maioria quando solteiro. Raros depois de casado. Jamais em detrimento de minha performance profissional. Não fui folião notável. Sempre trabalhei na segunda e quarta-feiras. E nos dias subseqüentes. Tendo sempre ao meu lado minha esposa como fiel auxiliar e escudeira. Assim é que eu podia observar muitas das conseqüências dos Folguedos de Momo. Alguns pacientes com exames agendados para os dias seguintes ao término do carnaval raramente compareciam. Não eram os mais necessitados, certamente. Aqueles costumavam remarcar para outra data. A nível de Previdência esta atitude sobrecarrega o serviço em detrimento daqueles que não se divertiram e que na maioria dos casos são os reais necessitados. Uma questão de consciência individual que por inúmeras vezes acaba por comprometer a eficiência dos serviços de saúde pública, principalmente. Se consultarmos dados estatísticos confiáveis vamos constatar a exacerbação de muitos casos de declínio de saúde pública decorrente dos exageros cometidos nesses prolongados dias de permissivismos de toda ordem. Oficialmente talvez não nos cheguem os números, nos primeiros dias. Posteriormente, o tempo, "herói da trama", se encarrega de mostrar ao observador diligente a imagem corrigida da realidade. Os exageros são cometidos por todas as camadas sociais. A classe média é a mais comedida e também sacrificada. É nela que estão situados os grandes contribuintes de impostos. São os mesmos que na maioria das vezes educam seus filhos eletiva e seletivamente em escolas qualificadas cujos ex-alunos conseguem os melhores empregos e cargos de liderança. São também os mais visados pelos criminosos por deterem melhores referenciais. É por isso que essa faixa social está gradativamente se adelgaçando, e seus ex-membros migrando, vão 'engordar' classes menos aquinhoadas que assim passam a onerar cada vez mais fortemente os cofres públicos para os quais os remanescentes - mormente os da iniciativa privada formal- são compulsoriamente chamados a contribuir cada vez mais pesado. Pois os da informal, na qual se encontram muitos marginais, assaltantes, narcotraficantes, e a maioria corrupta dos que integram a classe política deste país, raramente são enquadrados e punidos em virtude de dispositivos legais elaborados pelos próprios. Nunca é demais recordar que até a alguns anos passados, era cultura em nosso País os governantes aproveitarem-se dos períodos em que a população estava entregue aos festejos e recreações para, 'discreta' e 'democraticamente', pôr em prática algum projeto ou decretar alguma medida claramente lesiva aos interesses da população ativa da iniciativa privada. Pois é esta que paga o pato, ao fim e cabo. Afigura-se-me imperioso reconhecer a possibilidade de surgimento de inúmeros postos geradores de trabalho e renda para os humildes da informalidade, durante esses folguedos de Momo. Mas há que manter-se também a máxima vigilância. Esta deve estar focada na qualidade e quantidade das mercadorias e serviços destinados ao grande público consumidor nessas ocasiões festivas. E também no fato de que muitos pequenos vendedores são na realidade representantes de grandes empresários empenhados em obter lucros fáceis e isentos de tributação compatível. Quem vive nas regiões de grande adensamento populacional e se dispor ao trabalho de conferir tais fatos saberá a que me estou referindo. Longe de aspirar a pecha de intolerante, cumpre-me asseverar que tenho sempre em mente a máxima "a resposta é sempre individual". A todo o instante a mídia nos dá conta da trajetória que nosso País vem descrevendo rumo ao grupo de elite, integrado por Nações do primeiro mundo. Temos que nos reportar ao fato de que nesse grupo especial encontram-se Povos que num espaço de tempo relativamente curto transformaram limões em salutar limonada. A Alemanha atual, reunificada depois de ser arrazada, se constitui num dos exemplos mais edificantes. Muito antes mesmo de ser dividida pelo falimentar regime comunista, viveu épocas de intensas agruras. Grande parte de seu povo veio dar com os costados em nosso Brasil há mais de cem anos. E essa população, em sua maioria, aqui desembarcou cadastrada como "colonos". Hoje constituem as cidades listadas entre as de mais alto Índice de Desenvolvimento Humano da Região Sul, e de nosso País como um todo. Outro exemplo de semelhante magnitude são as regiões identificadas como de colonização Italiana cujos Imigrantes integram as regiões em que estão as Comunidades mais ricas de nossos Estado e Pátria. Em menores contigentes vieram outros povos como Russos, Holandeses, Japoneses, Chineses, Judeus, Portugueses, Espanhóis e até Nórdicos. Todos atraídos em comum, pelo solo fértil e abundante. As regiões ou comunidades onde se estabeleceram progrediram às custas de muito trabalho e tenacidade. Hoje quando assistimos desfiles carnavalescos podemos facilmente identificar os grandes centros geradores de diversão e laser e os grandes pólos geradores de divisas às custas de muito suor e trabalho. Por sinal essas duas modalidades de 'passatempo'- diversão e trabalho- parecem não se harmonizarem perfeitamente. Pelo menos no que se refere a intensidade. A Mãe Natureza em sua infinita generosidade assim se tem apresentado aos seus filhos-hóspedes: onde ela mostrar muitas riquezas minerais(ouro, prata, cobre e pedras preciosas) via de regra o solo destinado a agricultura não será dos mais férteis. A recíproca pode ser verdadeira. Neste caso temos o direito de deduzir que o homem que honra a mãe Terra com trabalho árduo e pertinaz dela certamente receberá condições de viver com dignidade. Não é uma conclusão pessoal. Apenas limito-me a fazer resgate parcial, e um tanto discreto ao inesquecível patrício Luiz Carlos Barbosa Lessa(in: "República das Carretas" e "Rio Grande do Sul, Prazer em conhecê-lo"!). Pensemos nisto enquanto me retempero em novas reminiscências.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
PARA REFLETIR !
Você, respeitável leitor, que vem acompanhando minha performance desde o início do relato destas memórias, certamente terá se questionado até que ponto muitos enfoques podem apresentar resquícios de fatos verossímeis e quantos dos mesmos serão fantasiosos. Não me acode, neste instante, oferecer-lhe argumentos persuasivos mais poderosos do que aquele representado pela própria capacidade perceptiva de sua consciência intuitiva. São modestas reportagens de experiências das quais algumas recordações já se poderiam ter perdido no nevoeiro secular. Certamente que esqueci muitos episódios, o que entendo inevitável. Os outros venho apresentando um tanto resumidamente. E neste aspecto reside, talvez meu maior pecado, creio. Seria deveras afortunado possuir talento mnemônico e escrúpulos vernaculares capazes de me permitir apresentá-lo com maior fidelidade. Alguns episódios foram deliberadamente omitidos. Ora movido pela ausência de pormenores que lhe emprestassem sentido; ora esquecidos por uma espécie de bloqueio psíquico manifestado na intenção de varrer da existência fatos constrangedores e mesmo aviltantes para um humilde exemplar da raça humana. Em quaisquer dos casos tive a preocupação de não permitir que tais defecções venham comprometer a essência do ensaio. Tenho 'pegado leve' , como se costuma dizer, ao referir-me a determinado assunto em relação ao qual tenho posição definida. Penso que é um procedimento que envolve a consciência e esta necessita se adaptar à luz das circunstâncias vigentes. Mas afinal que atributo é esse que, na maioria das vezes, somente os humildes, inocentes, fracos e oprimidos alegam ser por ele bafejado?. Vejamos uma seqüência de fatos que bem podem ilustrar a manifestação desse caráter. A exposição ou semeadura é livre, da minha parte. O julgamento, ou colheita, necessariamente ser-lhe-há da competência. De uma feita, num raro lampejo de sorte, trabalhando em minha drogaria, tive a atenção desviada para o programa que determinada emissora de rádio estava veiculando. Era uma entrevista com o titular do Poder Judiciário local. Não ouvi mas deduzi a pergunta através das palavras com que o representante do ministério público usava como resposta. Reportava-se ao fato de grassar francamente, no seio da sociedade local, uma forte rejeição ao fato de ele se relacionar de maneira tão estreita, quase íntima, com ex-detentos. Algum deles teria sido condenado por crimes bastante graves. A justificativa segundo a autoridade: seu relacionamento com os ex-apenados decorria do fato de os dito-cujos serem cidadãos quites com as leis que os reintegravam a sociedade após terem resgatado sua dívida com a mesma. Além do mais pelo ponto de vista cristão também tinham direito à fraternidade da sociedade. Não continuei a escutar as demais perguntas e respectivas respostas. Arbitrei que as últimas já me bastavam para considerá-las comprometidas com os princípios da moral e da ética, latentes em minha quase septuagenária consciência. Esta, prudentemente, não se permite aceitar esse desfecho judicial, embora reconhecendo-me insuficiente para modificá-lo. É possível que esteja a cometer um crasso equívoco. Se assim for penitencio-me. Mas de que maneira posso enxergar justiça numa situação em que um bandido atenta contra uma família, assassinando um e estigmatizando física e moralmente outros membros da mesma. Família essa, ou o que dela restou, que continuou trabalhando árdua e sofridamente para tocar com alguma dignidade a vida dos que restaram do ignominioso crime. Selvageria não, visto que os selvagens não são dados a essa modalidade de crime, que é apanágio dos cara-pálidas. Os remanescentes, também vítimas, teriam e terão que pagar impostos que, ao fim e cabo, reverterão pra compor o alto salário do meretíssimo e seus colegas de Judiciário. É ainda, do sangue e suor de seus labores que sairá uma parcela que, na forma de tributo, irá financiar o falido, corrupto e imoral sistema que controla a rede carcerária de onde o facínora, depois de alguns meses, às vezes anos, sairá livre e pós-graduado para novas aventuras criminosas. Sempre escudado pelas leis brandas e a impunidade. Isto tudo considerando a hipótese de ir a júri, e se julgado culpado chegar mesmo ao ponto de ser trancafiado. As mordomias prisionais se constituem em fatores atraentes pra muitos que por vezes pra elas retornam em seguida . Alegando não conseguirem emprego devido a suposto preconceito da classe patronal, se envolvem em novos conflitos e retornam para o xilindró onde tem moradia, roupa , alimentação em marmita 'quentinha', além de assistência psicológica que a maioria dos trabalhadores assalariados desconhece. A distorção é de tal ordem que o famoso criminoso narcotraficante, conhecido por 'Fernandinho Beira-mar' que, segundo as "boas línguas", foi capturado e é mantido encarcerado graças a poderosos e escusos interesses, inclusive políticos. Essa "notável personalidade" tem tanta importância para o "sistema" que o 'aparato de segurança' é especialmente REFORÇADO quando ele tem de ser transferido de uma pra outra Prisão de Segurança Máxima. Não sabemos segurança máxima de 'quem'. Da população brasileira que paga a conta não é, certamente. Cada aparatosa transferência- já foram várias, segundo a mídia ordinária- tem um custo muito superior ao da segurança do próprio Presidente Brasileiro, que por sua vez supera amplamente os dispêndios de alguns seus colegas mandatários dos países do Primeiro Mundo, com essa mesma rubrica orçamentária. Alguns detentos fazem cursos e parecem realmente recuperados. Assim quando são libertados conseguem trabalho e reiniciam uma existência digna. Outros meliantes acabam perpetrando novos crimes movidos pela atrativa criação do Salário de Reclusão cujo valor é superior ao do Salário Mínimo Nacional!!!. Ôpa!, mas que país é este em que um criminoso pode ganhar salário de recluso, por não poder trabalhar?. E salário superior ao Salário Mínimo com que se pretende remunerar as vítimas e seus dependentes, as quais, com seus sacrifícios, estão pagando para aquele fazer curso de aprimoramento em bandidagem. Verdadeiras Mordomias são exigidas a custa da depredação dos presídios e patrimônio público, acintosa e impunemente, como se propriedade pessoal do detento fosse. Onde estão as colônias-penais em que os apenados poderiam se ocupar trabalhando e produzindo o que consomem e até vendendo seus produtos para a sociedade que lesaram, recebendo dessa uma remuneração dignificante e compatível. Em vez de ficarem se ' reciclando' no crime dentro das imundas cadeias públicas que fazem recordar as sórdidas masmorras da idade média. Das quais o indivíduo certamente saí pior do que quando nela ingressou!. E quando saí, geralmente portando doença infecto-contagiosa, se candidata a paciente do SUS, entidade sustentada arbitrária e covardemente com os recursos arrecadados compulsoriamente dos associados , e abstraídos criminosamente dos aposentados que por anos a fio contribuíram com valores mais elevados, na expectativa de um dia virem a ter uma velhice mais tranqüila, inclusive com plano de saúde que lhes possa assegurar atendimento, no mínimo mais digno. Na prática verifica-se que muitos cidadãos contribuintes estão reduzidos a injusta situação de igualdade com muitos de seus algozes. Resultado: vão se juntar também aos criminosos, disputando , como se fosse uma 'esmola', o falido serviço público de saúde brasileiro. Antigamente o Ministério da Saúde mantinha a assistência social. Depois fundiram todos os 'iapês'(IAPC, IAPB, IAPFESP, IAPTEC, IAPI, etc) que davam lucro, num único a que denominaram INPS , o qual agora só arrecada. Coube ao agora SUS a tarefa de 'ministrar' saúde a quem paga por si e pelos marginais de que me referi antes. É O BRASIL, PAÍS DE TODOS! (principalmente dos INJUSTIÇADOS, que arcam com o ônus cobrado impunemente pelos DESONESTOS). Neste ponto sou tentado a confessar saudade do governo militar, em que o trabalhador era respeitado e a bandidagem não tinha muita folga. Será que a tão execrada ditadura militar realmente vitimou( entre 1964/83) tantos brasileiros quantos são os trucidados na violência do trânsito e nas favelas e ruas das grandes cidades pelo crime dito organizado?. Ou seria um pretexto para se instalar uma ditadura de esquerda em nosso País?. Temos direito e dever de questionar a validade de determinados programas sociais, demagogicamente implementados com recursos desviados dos aposentados da iniciativa privada, especialmente do INPS tão supravitário, que embora seja constantemente roubado, não quebrou oficialmente, ainda!. E a tão propalada inclusão social em que os jovens são mostrados pela mídia envolvidos principalmente com capoeira, luta livre, futebol, além de outros esportes populares. Ou praticando artes, dança e música, inclusive clássicas. Um País de dimensões continentais e imensas áreas agriculturáveis não tem o direito de relegar a atividade primária a segundo plano, especialmente quando, segundo a mídia, milhões de brasileiros passam fome. Não entendo também essa reforma no modelo educacional em que muitas vezes o indivíduo mal acabou sua alfabetização, e via ENEM( exame nacional de ensino médio) tem acesso à Universidade, em detrimento de muitos que tiveram que pagar caro para concluir um embasado curso secundário. Minha expectativa é que entre aqueles esteja o PRIMEIRO Prêmio Nobel brasileiro. Vale lembrar que a alguns anos atrás só na Universidade Nacional de Buenos Aires, capital Argentina, eram contados CINCO professores com esse galardão. Não sou do contra. Sou a favor de programas bem fundamentados que não ofereçam margem para manipulação desonesta de verbas públicas. Temos o exemplo bem sucedido do estadão de São Paulo. Há mais de três quartos de século vem investindo parelho em todos os setores, especialmente na educação tecnológica e na produção primária que tem o poder de alimentar o maior parque industrial da América Latina e arrastar o restante da economia brasileira. Com uma área territorial cerca de onze vezes inferior a da Argentina consegue um PIB superior várias vezes ao daquele país. Mas estes dados estão desatualizados. São humildes divagações à guisa de exercício. Futuramente, com mais fôlego, talvez me atreva a alçar vôos mais promissores.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
UM INSÓLITO COMPANHEIRO DE CHURRASCO
Quando o calendário apontava para algum feriadão ou data especial, nos programávamos para esticadas mais longas. Dia das Mães era sempre passado em Santa Maria, com as amadas, enquanto viveram. Natal e Ano Novo costumávamos alternar: no ano cujo Natal passávamos com elas, necessariamente o Novo Ano seria iniciado em Pedro Osório. Ano seguinte invertíamos. Desta maneira jamais deixei a comunidade pedro osoriense sem atendimento laboratorial por mais de três ou quatro dias, exceto por falta de energia elétrica e quando fui hospitalizado, conforme já relatei. Noutras oportunidades visitávamos Caxias do Sul, a bela e progressista 'Pérola das Colônias', onde residiam os pais de meu amigo Luis Fernando- médico que mais tarde se transferiu para Macapá, capital do Amapá. Uma visita rápida a Bento Gonçalves, "capital do vinho" e notável 'pólo moveleiro' de nosso Estado . Depois de um saboroso galeto com polenta, precedido pela tradicional sopa de 'capeletti' descíamos para Garibaldi, a capital do 'champagne' naqueles dias. Em outras oportunidades saíamos de Santa Maria , percorrendo a BR287, conhecida como 'rota do sol' que inicia em São Borja, na região missioneira e vai para o litoral norte gaúcho. Passávamos ao largo da bela Santa Cruz do Sul, cidade de colonização germânica muito industrializada e sede da Festa Nacional do Fumo. Aqui está uma das mais atraentes igrejas lembrando o estilo gótico, no Brasil. Adiante passávamos no meio da promissora Lajeado, também de influência alemã e rumávamos pra Caxias do Sul onde geralmente chegávamos ao anoitecer. Não íamos dormir sem saborear a sopa de 'anioline' da Churrascaria Imperador. Geralmente nos hospedávamos no hotel Itália, quase na frente desse restaurante. Na manhã seguinte demandávamos a 'rota das hortências', passando pela típica e hospitaleira Nova Petrópolis . Se o viajante tiver sorte poderá maravilhar-se com o cenário das alamedas floridas que emolduram a estrada até São Francisco de Paulo, depois de Canela. Almoço em Gramado e rápida visita ao Lago Negro em Canela. Hoje existem inúmeras outras atrações, difíceis de visitar em um só dia. Naquela época essas duas pequenas cidades ainda não estavam no Primeiro Mundo( idh próximo de 1), o turismo apenas começava a engatinhar e a Distribuição de Kikitos ainda não decolara com o cinema nacional, como podemos verificar nos Festivais de Cinema de Gramado, tão concorridos hoje. Cedo da tarde rumávamos para a Capital, onde com freqüência nos hospedávamos na casa da família Ricardo Ziebner / Juraci, nossos velhos amigos desde a década de 60/70, quando viveram em Santa Maria. Muito alegres, dispostos e ótimos anfitriões não nos deixavam sossegar. Sempre tinham uma nova churrascaria para nos apresentar, quando não estavam dispostos a preparar o próprio churrasco, no que o 'Ricardão' era mestre. Ou então um passeio com direito a banho em cascata de água natural, na serra onde tinham uma propriedade para veranear. Continuavam trabalhando em vendas. E de vento em popa como sempre, graças a Deus. Moravam em uma bela casa, do gosto e propriedade deles. Merecedores do sucesso, pois, como já falei, eram os melhores no que faziam. Que eu conheci, é claro. Morava com eles a querida NILDA , mãe da Juraci e sogra-mãe do Ricardão. Seus filhos DEDÉIA e RICARDINHO muito bem educados, eram bons amigos do meu herdeiro. Gostavam de bichos. Entre outros tinham canários, papagaios, gatos e cachorros. Estes 'adestrados', como costumava acontecer com os bons 'deutsch'. Tinham até um macaquinho que atendia pelo nome de 'kako' e que possivelmente, pela irreverência, resolveram oferecer de presente pro meu filho. Esse pitecóide a que já referi ligeira e anteriormente, tornar-se-ia como um quarto membro da minha família. Era verdadeiramente um espetáculo o Leontopithecus(mico-leão cinzento) que passamos a chamar de 'kakito'. O 'primata' mirim estava sempre atento a tudo e a todos. Certa vez deixamos a gaiola aberta, ele saiu e se perdeu nos galhos de um frondoso 'camboatã' que tínhamos próximo e nos fundos de nossa moradia. Ouvíamos seus gritos e o chamávamos mas só desceu pra sua gaiola à noite. Aos domingos ou feriados enquanto eu aprontava e 'biliscava' o churrasco, na sombra da grande árvore, ele ficava bem exaltado, pulando de um lado pra outro na sua 'casa' com laterais em tela de arame fino. Lá pelas tantas, depois de eu lhe oferecer um 'fragmento' de carne assada ele se acalmava. E aí o melhor do espetáculo era vê-lo segurar a pequena 'amostra' de alimento com as duas mãozinhas e roer, degustando o churrasco alegremente. Meu filho, ajuizadamente, não gostava do espetáculo e me reprovava pelo mesmo: " pai não dá carne pro bichinho, não é alimento dele". Eu retrucava dizendo que aquele sim era meu grande companheiro. Não oferecia cerveja pro meu 'semelhante'. Vá que ele gostasse. Já pensou sustentar um 'pau de água' daquele porte e ainda nervoso como era. Quando viajávamos pra Santa Maria, não ia conosco mas lhe deixávamos suficiente suprimento alimentar. Não o deixávamos com estranhos. Fazia o maior sucesso com todos quantos nos visitavam. Viveu uns dois anos tranqüilamente. Dormia dentro de uma manga de blusão de lã nas noites invernais. Amanhecia com os cabelos desgrenhados e , às vezes, com os olhos lacrimejando e purulentos. Certa manhã de intenso frio, no rigoroso inverno de 83, não resistiu e morreu. Os entendidos afirmavam ter sido de pneumonia, vez que a espécie sendo de clima com temperaturas mais amenas, não resiste ao frio extremo. Ainda uma vez nos abraçamos com nosso filho e choramos pela perda do 'kakito'. Tivemos ainda um casal de periquitos . A fêmea morreria também de frio. O machinho sentindo-se só começou a se interessar pelas 'lições' que eu lhe oferecia. Certa manhã apareceu desbicado. Trancara o bico entre os fios de arame da gaiola, decerto. Nos o alimentávamos, então, com mingau grosso de farinha de cereais, em conta-gotas, suplementado com vitaminas próprias para passarinhos. Recuperou-se parcialmente pois ficou com a ponta do bico truncada. Recuperado na forma física ficou muito dócil e grande amigo. Pela manhã eu o chamava para ir tomar café na mesa. Abria a portinhola da gaiola, com o que lhe restara do bico, e voava pra cima da mesa. Aí passando por cima de tudo, subia no meu braço e esperava que lhe oferecesse pão molhado no café, na ponta da língua. Depois que o 'papinho estava estufado' voltava pra sua casa. Outras vezes subia no ombro de minha esposa e ao ouvido dela pedia bem baixinho "da papá pra cocóta". Certa tarde já ao escurecer me viu na cozinha , através da vidraça. Chamei-o com o assobio e ele deixou a gaiola na minha direção. Creio que ao lusco-fusco do anoitecer se confundiu e em vez de pousar no meu ombro, passou direto e foi pousar numas folhagens ali próximo. Procuramos e chamamos, à exaustão, sem resposta. O instinto os desaconselha a usar sua voz no escuro. Proteção contra os predadores. Nos dias seguintes não retornou. Perdeu-se ou algum guri vizinho o adotou, para nossa tristeza. Não tivemos mais bichos de estimação, desde então. Numa oportunidade dessas talvez cedamos à tentação de ter outros amiguinhos. Nunca nos interessamos pelo 'maior amigo do homem'. Consideramos que o cão é muito exigente em cuidados, além de um apego ainda maior pela relação de amizade que desperta. Quanto ao gato, por ser sorrateiro , silencioso e traiçoeiro, faz-se 'independente' e, seu apego visa principalmente ao bem estar que o 'amigo' humano lhe proporciona. Se a situação se complica ele pode roubar e fugir pra salvar a própria pele. Afinal ele é tido como 'dotado de sete vidas', né?. O cão, contrariamente, é capaz de acompanhar o amigo até nas piores situações, com risco da própria vida. Por isso terá sido guindado a 'cão de guarda', ao passo que não tenho informação do emprego dos 'bichanos de guarda'. Mesmo por que para isso estariam prejudicados pelo porte físico, na maioria dos casos. Mas há que se levar em conta a máxima 'tamanho não é documento'. Respeito os felinos mas, pessoalmente, não me identifico com o modus operandi , da maioria dos que acho que conheço.
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