Andava eu lá pelas quarenta e duas primaveras e meu esqueleto já contabilizava oito intervenções cirúrgicas e respectivas anestesias gerais. Mais três viriam nos próximos dois decênios. Já me reportei a elas quando relatei o acidente de automóvel em que fui parcialmente feito em pedaços e que a seguir foram emendados e remendados, satisfatoriamente. A última cirurgia foi uma correção de plexo hemorroidário interno. Esta terá sido a pior de todas. A anestesia foi executada desde a cicatriz umbilical para baixo. Dessa maneira me foi possível perceber e acompanhar a perda progressiva da sensibilidade desde as extremidades dos dedos e pés, atingindo pernas, joelhos e coxas. Quando perdi a sensação dos meus atributos sexuais reclamei ao médico cirurgião. Por aquele preço eu preferia ficar com o desconforto causado pela hemorróida. O competente profissional tranquilizou-me, garantindo que tão logo passasse o efeito anestésico tudo voltaria ao normal. Ufa! Ainda bem! Nunca se sabe o que nos espera no futuro, mesmo já se contando seis décadas de peregrinação nesta existência. Alguns instantes após o procedimento médico, eu gradativamente comecei a recobrar a sensibilidade. E também a experimentar a sensação de felicidade por ainda continuar vivo. Nessa oportunidade fiz uma breve retrospectiva e não consegui recordar de já ter vivenciado semelhante sensação nos pós-operatórios anteriores. Deveria existir uma explicação para tais sensações. Longe de pretensões doutrinárias, mas sempre fiel às emanações da consciência, associei a impressão de harmonia haurida naquela oportunidade ao fato de eu andar incursionando na doutrina espírita. A leitura de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, estaria esboçando os primeiros sinais da consciência espiritual sendo despertada, num esqueleto cuja cabeça outrora garbosa por ostentar uma “melena ruana”, agora se inclinando, flagrantemente, ante o peso dos ainda remanescentes “fios de prata”, em franca decadência. Este fenômeno muito conhecido como calvície não é totalmente estranho em minha família. Recordo que minha mãe, quando em idade já avançada, também mostrava sinais dele, embora seja mais comum no sexo masculino. Várias teorias tentam explicar a queda dos cabelos: Hereditariedade, uso prolongado de alguns medicamentos, alimentação cárnea abusivamente gordurosa, uso de sabonetes ou xampus inadequados, águas excessivamente cloradas e/ou mineralizadas, fatores associados ao hormônio sexual testosterona, e perturbações no psiquismo do indivíduo. Especula-se que banhos com água muito quente e demorados, também podem facilitar a queda capilar. Por meu turno, faço o mea culpa, assumindo a responsabilidade por praticar uma parcela de todos esses fatores. E mais algum que nossa vã filosofia ainda não conseguiu comprovar ou catalogar com alguma segurança. Os cabelos certamente são muito importantes, do contrário a mãe-natureza não no-los teria legado como dote, já antes de nascermos. Mais importantes do que esses, contudo, devemos considerar os “fios de prata” que muitos eruditos espíritas conhecem como “Cordões de Prata”. Definidos como apêndices energéticos que interligam o corpo sutil, psicossoma, ou perispírito, ao corpo físico. Desta sucinta noção de anatomia invisível aos olhos da maioria, inclino-me, atrevidamente, a deduzir que, ao fim e cabo, qualquer fator que possa interferir na harmonia dos nobres “'cordões de prata” poderá ser responsável também pela calvície. Esta por sua vez não deve ser entendida como de todo abominável. Antes convém lhe analisemos os estigmas. Se por um lado descaracteriza nossa estampa crânio-facial, por outro nos pode remeter a uma profunda reflexão íntima capaz de influenciar em nossa razão e maneira de nos conduzir frente às vicissitudes da existência. Esta conclusão certamente que reflete também parte de minhas ciosas lucubrações. Jamais será de todo dispensável o joeirarmos essas asserções, pois não temos poder nem pretensão de reter a verdade, mas tão somente nos é dado perscrutar alguns sinais que podem apontar o caminho que conduz a ela. Assim se este enfoque conseguir atingir a consciência de algum leitor, estará contemplando-me com subsídios capazes de fazerem imaginar-me tenha sido inspirado pela Infinita Hierarquia Espiritual Universal que sutilmente nos impele a trabalhar para a elevação da condição humana.
terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
DIREITOS HUMANOS
Vem dos tempos de minha juventude as primícias de perspicácia a excitarem minha reflexão. Desde então só fez aumentar minha indignação face ao modo como são tratados os Direitos Humanos. Oportuno lembrarmos a consciência. Sempre ela, está por trás das atitudes humanas ao longo de nosso peregrinar neste orbe. Sendo a primeira faculdade que se nos manifesta já nos mais tenros anos de idade, deveria ser alvo de permanente, criterioso e rígido programa de ensino e treinamento inserido em nossa educação. Com tal processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança, e do humano em geral, teríamos melhor integração individual e social. Decorre daí não só o Direito mas o binômio Direito/Dever que passará a condicionar as atitudes do homem durante toda sua vida. Pleitear direitos pressupõe necessariamente reconhecer deveres. E vice-versa, pelo menos em uma sociedade estruturada com base na "justiça" que é a faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência( cfme.o "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa"). Nesta repousam certamente os alicerces da estrutura social de um povo. Daí a importância desse atributo e a necessidade de seu constante aprimoramento e ajuste à luz das circunstâncias seculares que envolvem a humanidade. Uma nação é constituída por um agrupamento humano mais ou menos numeroso, cujos membros, fixados num território, comungam laços históricos, culturais, econômicos e lingüísticos. O conjunto de indivíduos que falam o mesmo idioma, têm os mesmos costumes e idênticos hábitos, afinidade de interesses e uma história e tradições comuns constitui um povo. Para que este progrida e avance em face das suas próprias necessidades e no contexto das demais nações foram criadas as leis. Estas constituem normas ou regras de direitos ditadas pela autoridade estatal e tornadas obrigatórias para manter a ordem e assegurar o desenvolvimento numa comunidade. Essas regras de direitos, teoricamente, têm o mesmo valor seja para a população em geral ou para os seus representantes legais. Não estão previstas regalias pois todos são tidos como "iguais perante a lei". Na prática, aos poucos tais dispositivos legais acabam sofrendo emendas capazes de lhes modificar a redação e corromper-lhe o caráter original. Entre nos se tornou costume a introdução de emendas nas leis para restringir-lhes o alcance ou cerciar-lhes a eficiência. Os legisladores através das entrelinhas conseguem muitas vezes lograr vantagens legais pessoais, e para seus correligionários, que maioria das vezes, são da família. A corrupção é cosmopolita mas com impunidade de prevalência nos Países classificados como subdesenvolvidos. Infelizmente não estamos vacinados. Afigura-se-nos imperioso adquiramos consciência e fiquemos atentos para depararmos com situações que revelam adulteração em relação àquelas ética e moralmente aceites. Às vezes os sinais de corrupção se mostram de tal modo disfarçados que nos induzem a dúvidas acerca de nossa consciência. Entretanto se estivermos atentos diminuem nossas chances de cometer injustiças com relação a muitas circunstâncias do nosso turbilhonado quotidiano. Com freqüência convivemos com a adulteração das coisas e situações quase sem o perceber. As taxas de cobrança pagas nas contas telefônica, água e esgoto, energia elétrica, plano de saúde complementar, ipva, iptu e outras tantas contas. As taxas de expediente das contas públicas de estatais. A moeda de troco que o garagista argumenta não dispor. O pequeno malabarista dos limões que se precipita na frente de nosso carro mal cambiou o sinal e que fica xingando no trânsito quando o valor da moeda é muito baixo. A má vontade de muitos funcionários públicos, e mesmo de empresas privadas, em oferecer informações aos idosos e despreparados para conviver com a moderna tecnologia da mídia. Aliás esta é uma das grandes responsáveis pelo recrudescimento dos assaltos e roubos. Não sou contra a modernização se racional. Informatizaram a sociedade com a extinção maciça de postos de trabalho. Muitos desempregados que não conseguiram nova colocação formal partiram para o 'tudo ou nada'. Bem treinados, preparados e adestrados nos antigos empregos; encorajados pelas brandas e confusas leis que garantem impunidades ou penas leves, foram estruturar o crime organizado que rouba milhões nas empresas públicas, privadas e população em geral. Raramente algum desses criminosos é trancafiado devido o poder de subornar os policiais. Quando estes são honestos, com freqüência acabam sendo desmoralizados e ainda ficam 'marcados', graças às brechas legais que mandam soltar os meliantes eventualmente presos. E as penitenciárias sem um mínimo de condição para reeducar e reconduzir o criminoso ao digno convívio na sociedade por ele agredida. Esta que é obrigada a receber aquele, agora, com novos vícios incorporados no convívio com outros reclusos nas superlotadas cadeias cujas condições desumanas são mostradas diária e repetitivamente pela tevê. Neste ponto reside minha maior inquietude. Como posso entender e aceitar o pleito de quem foi condenado por cometer crime contra cidadãos ordeiros, inofensivos trabalhadores, geradores de riquezas e tributos que vão sustentar a máquina pública com todos os seus servidores cheios de favores e regalias. Já acudiu a iniciativa dessas respeitáveis entidades que lidam com estatísticas investigar, com seriedade, para apurar o percentual de vítimas da iniciativa privada comparada com as do poder público. Desconheço tal enquete. Se ela existe, qual motivo para seus resultados não serem divulgados com maior eficiência?. Ou não haverá interesse nem da mídia, num assunto de tamanha importância para o desprotegido trabalhador que contribui com mais de um terço de seu trabalho com impostos cuja aplicação lhe é vedado fiscalizar. Ou a indiferença decorre do fato de ser sempre o contribuinte da iniciativa privada que compulsoriamente sustenta tudo. Já me reportei ao nosso sistema judiciário. Por sinal muito bem remunerado, se comparado com a iniciativa privada que o sustenta, bem como aos demais Poderes Legislativo e Executivo cujas lisuras são motivos de questionamentos na sociedade. Onde estão os direitos dos verdadeiros trabalhadores brasileiros que carregam esse 'Gigante', suposta e pretenciosamente, rumo ao 'primeiro mundo'. Conhecemos os dirigentes políticos e sabemos quais são seus métodos?. Certamente que não estão de acordo com os verdadeiros Direitos Humanos. Cumpre-nos questionar a quem as autoridades e suas leis querem realmente proteger?: o cidadão que está desarmado, e após uma árdua jornada de trabalho- para gerar quarenta e tantos por cento de impostos- se consegue chegar em sua casa tem que suportar pesadas grades de ferro e outros aparatos de segurança na tentativa de apenas dificultar a ação dos bandidos. Ou a proteção do bandido é mais vantajosa para o sistema?. Haja vista nas depredações impunes de presídios, delegacias e viaturas policiais e outros bens custeados com recursos oriundos dos impostos escorchantes que o trabalhador tem o dever de pagar mas não lhe é conferido o direito de usufruir dos benefícios. Temos ainda a questão dos supostos 'sem terra'. Invadem propriedades reconhecidamente produtivas. Destroem prédios, plantações, avariam máquinas e bloqueiam o trânsito em rodovias pedagiadas. Tudo à luz do dia e sem o mínimo respeito pelas leis e muito menos pelos direitos que elas deveriam conferir.Todos esses crimes são cometidos ao arrepio das leis e com a conivência das autoridades, sempre com o suporte dos recursos gerados pelo suor e sangue dos trabalhadores, na forma de impostos.Até quando suportaremos tal inversão de valores?.
quinta-feira, 11 de março de 2010
RESPOSTA CONVENIENTE!
Tenho abordado vários aspectos do comportamento humano, ao longo do conteúdo de minhas memórias. Em realidade lancei como que um discreto 'flash' sobre algum fato que de certo modo terá contribuído para 'formatar' uma imagem um tanto vaga de minha personalidade ao longo destas décadas de existência. Conservo a nítida noção de quão rudimentares são essas narrativas. Na absoluta maioria das oportunidades cometi o equívoco de apenas mencionar a experiência sem eviscerá-la convenientemete. Um pouco movido pela esperança de que o virtual leitor assumisse meu lugar e assim justificaria meu lacônico 'passeio' no cenário relatado. Todavia a maior parcela de limitação reside mesmo na insuficiente habilidade com o pendor literário. Relatei com traços lúdicos os primórdios da infância até onde imagino ter conseguido fazer minha memória recuar. A adolescência foi abordada de modo um tanto prolixo até. Leve-se em consideração a necessidade que os jovens sentem em ostentar a personalidade que a seguir agregará os dotes que a sociedade irá acolher como virtude ou rejeitar como vício. E aí vem a maturidade em que somos cobrados energicamente, por aquela que, na maioria das vezes, não move uma pena para facilitar nosso aprimoramento pessoal para melhor e mais convenientemente sermos nela inseridos. Não mais que de repente um certo dia nossa consciência é abalroada com o duro questionamento: " que fizeste com tua juventude de dourados dias?". Oh meu caro leitor!. Que sarcástica pergunta assalta a incansável consciência de um batalhador que jamais desviou o foco da existência laboriosa e perseverante. Não qualifiquei a referida de honesta. Considero este atributo inerente ao ser humano enquanto criatura oriunda de tão sublime estirpe. Nascemos inocentes e honestos. As circunstâncias nos podem fazer desviar dessas virtudes. Temos a razão e o livre-arbítrio para orientar nossa consciência e modelar nossas vontade e atitudes no sentido de corrigirmos as desairosas disposições que nos assaltam em tais circunstâncias. Infelizmente sou um poço de vícios existindo num vasto deserto em que por vezes se pode garimpar alguma virtude. Além do mais vejo fundamento no Kardecismo quando interpreta nosso desempenho vital como decorrente da ordem cíclica reencarnacionista. Nós ocidentais costumamos olhar com piedade para as pessoas de países subdesenvolvidos. Dizemos que eles têm um estilo de vida primitivo enquanto nos auto rotulamos de avançados. Mas afinal quem somos?; para que direção estamos indo?. Estas questões se me impõem quando consigo me fixar no fato de que realmente 'muitos são os chamados mas poucos os escolhidos'. Alguns teólogos afirmam acreditar que a humanidade vai se tornar cada vez mais sofisticada até que, eventualmente, poderemos nos fundir em igualdade com Deus. Certamente que todos conhecemos pessoas presunçosas que acham já terem alcançado esse estágio. Não posso esquivar-me aos reclames da razão. Entendo existirem muitos mistérios em nosso mundo. Mistério e Milagre não encontram explicações científicas plausíveis, à luz dos modestos conhecimentos transcendentais de que penso estar animado. É bem conhecida a sentença Cristã que afirma 'sermos Deuses'. Humilde e despretenciosamente prefiro reconhecer-me como animado da centelha 'de natureza divina', pelo aspecto espiritual. Encontro certo obstáculo no suposto politeismo com que não me afino. A ORDEM UNIVERSAL reinante que o ser humano ainda não conseguiu replicar em laboratório, empresta-me a firme convicção na unicidade do Espírito Universal. Se fossem vários não poderia existir essa harmonia e perfeição no Universo. Não podemos esquecer que o homem, com freqüência, costuma corromper e subverter a ordem das coisas com o fito único de poder jactar-se de ser o 'inventor' de algo.
quarta-feira, 3 de março de 2010
OUTROS TEMPOS, OUTROS PARADIGMAS!
A algumas páginas atrás reportei-me ligeiramente às visitas que minha pequena família eventualmente realizava a cidadezinha Uruguaia de Rio Branco, vizinha da nossa heróica Jaguarão. Mencionei a alegria com que acolhíamos as coisas singelas, quase bucólicas, do local e da região como um todo. A cordialidade com que os hermanos nos recebiam naqueles dias, e ainda hoje. Não fosse a relativa dificuldade do idioma e não seria exagero qualificar de 'contagiante' a disposição com que nossos vizinhos nos tratam hoje. Percebo que nos dois lados da fronteira Brasil/Uruguay existe como que um certo esforço inconsciente no sentido de mútua aproximação e fraterno convívio. Do alto de meio século de convivência fronteiriça desde São Borja, no médio Rio Uruguai até os antigos 'Campos Neutrais' no extremo sul de nosso Estado, atrevo-me a afirmar que nem sempre foi assim. Especialmente no que respeita ao relacionamento com os 'paysanos' das províncias Argentinas separadas de nosso Estado pelo lendário rio Uruguai. Por oportuno é importante que lembremos de São Borja como a mais antiga civilização rio-grandense, tendo sido fundada em 1682 pelo jesuíta espanhol padre Roque Gonzales, com o nome original de São Francisco de Borja. Ao passo que a fundação de Rio Grande, obra do português explorador e militar Brigadeiro José da Silva Paes, remonta a 19 de fevereiro de 1737. Estas, portanto, são as cidades mais antigas de nosso Estado, fundadas respectivamente por Espanhóis e Portugueses. Depois de vários conflitos armados, sucedidos de negociações e tratados as duas cidades passaram em definitivo ao domínio Luso e, finalmente ao nosso Estado e Brasil. Possível significado para o nome 'URUGUAY'(uru=pássaro,gua=lugar e y=água)seria "Rio dos pássaros". Existem outras versões mas preferi anotar esta, por ser a mais difundida. Em minhas primeiras férias, quando eram de apenas vinte dias, em 1959 com dezesseis anos e as 'puas' querendo surgir acima dos calcanhares do então 'frangote, apesar dos fundados protestos de minha mãe, decidi conhecer Santana do Livramento e, obviamente, Rivera, no Uruguai. Justamente na época do Carnaval. Este não era muito festejado ainda naquela época e região. Poucas rádios e a imagem de TV ainda ausente na maioria das regiões do RS, deixavam a cobertura do evento para as revistas 'O CRUZEIRO' e 'MANCHETE' que não chegavam a atingir a performance da mídia hodierna. Também eu era comedido pra festas. Além do mais eu estava interessado na compra de algumas utilidades pessoais importadas. Viajei num dos antigos trens conhecido como 'Maria-Fumaça" pois era tracionado por máquina à vapor cuja caldeira era aquecida com energia da combustão do "carvão-de-pedra", um carvão mineral impregnado de óleo que se encontra em abundância no solo e subsolo de nosso Estado. Ao longo dos milênios teria se fossilizado. Muito calorífico mas acabava por deixar no ar uma fuligem carregada de partículas de carvão que deixava os passageiros e suas roupas pretos e irreconhecíveis. Mais tarde, já na faculdade Farmácia, tomaria consciência que a tal fuligem era responsável por muitas doenças das vias respiratórias, ou no mínimo as agravaria. É o caso das pneumoconiose e tuberculose. Fato é que na oportunidade saí de Cacequi às 13:30 e cheguei em Santana do Livramento lá pelas 18:00 horas. Um táxi levou-me, da Estação ferroviária, para o tradicional Hotel do Comércio que oferecia pensão completa. Após o jantar dei uma rápida explorada nos arredores. Afinal era a maior cidade que eu visitaria até então. Santa Maria viria a seguir. Na manhã seguinte, após o café, me fui conhecer a famosa 'Calle Sarandí' e seu movimentado comércio na buliçosa Rivera, uma das mais importantes cidades uruguaias, ainda hoje. Observei várias lojas com vitrines amplas repletas de artigos com nomes e expressões em inglês que eu mal começava a entender. Finalmente me decidi a entrar na Loja Americana. Comprei uma garrafa térmica, um relógio de pulso marca 'Robert Carter' com pulseira rígida e uma jaqueta em nylon, cor azul-claro, com pele de cordeiro na gola e fecho zíper. Fazia grande sucesso com a dita cuja, que além de bonita era muito quentinha. Usei-a por muitos anos. Por fim a substitui por um casacão 'pêlo-de-camelo' marca 'Balmoral', comprado na mesma loja, anos depois quando eu já era vendedor-viajante. O excelente relógio Robert Carter seria destruído no acidente de automóvel, cerca de dez anos depois. A garrafa térmica teve existência efêmera. Costumava deixá-la com café quente pra eu tomar pela manhã antes de sair para a farmácia. Uma noite cheguei em casa e minha saudosa mãe confessou, sem jeito, tê-la quebrado, por acidente, claro. Fiquei furioso com ela. Mas que fazer?. Voltaria a sacrificar mais uns minutos do sono matinal, tão caro aos jovens adolescentes, para preparar o café que naqueles dias ainda era passado no velho filtro de saco de algodão. Anos mais tarde compraria outra na mesma loja. No momento de efetuar o pagamento fui surpreendido com a pergunta: "oro" ou "papel". Não entendi nada!. Com alguma dificuldade o funcionário conseguiu me fazer entender que "oro" era a moeda nacional uruguaia e "papel" era o dinheiro brasileiro. Humildemente respondi que era em 'papel'. Paguei e não bufei!. Muitos anos mais tarde, já experiente, aprendi a trocar nossa moeda por 'pesos', nas casas de câmbio. Assim pagava-se sempre menos. Foi então que concluí ter sido vítima da 'marreta' cambial. Durante os longos anos em que viajei na região da fronteira, sempre me defrontei com a arrogante, presunçosa e antipática pergunta. Invariavelmente, acontecia em lojas, restaurantes e onde quer que se fizesse algum pagamento. Felizmente o 'herói da trama'-o tempo- uma vez mais se encarregou da correção dos fatos e hoje é bem diferente. Nossa moeda é quase tão bem aceita e desejada quanto o Dolar. Aceitam muitos cartões de crédito e raramente questionam se o pagamento será em "oro" ou em "papel". E a entonação da pergunta não é acintosa como em outros tempos. Isto no que diz respeito ao relacionamento comercial com o Uruguai. Outro era o relacionamento com a Argentina, na mesma época, posto quase insuportável. A tal ponto que raras vezes atravessei a fronteira para ir comprar alguma coisa nas cidades argentinas fronteiriças com o Brasil. Há que se ponderar que em todos esses anos, principalmente da década de 60 em diante, muita coisa mudou contribuindo para melhorar a imagem de nosso País e a auto-estima dos brasileiros. A par de um clima de desconfiança política estava sempre nosso atrasado modelo cultural, comercial, industrial e tecnológico. A própria agricultura e pecuária, atividades básicas que alavancam os demais setores econômicos de uma nação, andavam sempre a reboque dos Países Platinos e do Chile. Carnes e derivados, artigos de lã, queijos, cervejas, vinhos, azeite de oliva, farinha de trigo e seus produtos manufaturados- macarrão e galletas- atravessavam a fronteira em transações tanto oficiais quanto clandestinas. O advento do Mercosul terá contribuído para equacionar as relações nesse campo. Na área da cultura hoje é comum encontrarmos profissionais que se graduaram ou fizeram cursos de especialização em Montevidéu, Buenos Aires, La Plata, Córdova e outros importantes Centros Universitários platinos. Até 1960 era comum um sul-rio-grandense do interior tomar o trem ou um avião e demandar Montevidéu ou Buenos Aires para tratar sua saúde ou a de seu familiar. Era mais fácil, seguro e econômico do que ir a nossa Porto Alegre, único centro dotado de infra-estrutura satisfatória. A construção de rodovias pavimentadas estaduais e federais aliado ao surgimento de Universidades em Santa Maria, Pelotas, Caxias do Sul e outras mais recentes, veio oferecer alternativas e soluções viáveis. Quem vivia em centros ferroviários, com freqüência, deparava com composições férroviárias repletas de 'Guano'(fezes e excretas de pássaros e morcegos) procedentes dos países andinos, principalmente o Chile, via Uruguaiana-Cacequi, com destino às fabricas de adubos em Rio Grande. A muitos anos não vejo mais esses trens. Não acompanhei a evolução da indústria de fertilizantes e defensivos agrícola. Creio que nossos agricultores estão hoje melhores preparados e competitivos também. A monocultura vem sendo repensada em favor da rotação de culturas ou até das culturas casadas. O advento do plantio direto afigura-se como um avanço tecnológico, com a menor degradação do solo e custos de produção mais baixos. As exposições agropecuárias a cada ano mais incrementadas e concorridas, proporcionam intercâmbio entre os empresários nacionais e estrangeiros que nesses eventos trocam experiências. No esporte, particularmente no futebol, em que raramente superávamos nossos adversários Platinos, também avançamos. Hoje, com certa freqüência, os clubes brasileiros conseguem levar vantagem sobre os tradicionais 'papa-titulos' do cone sul. Enfim nosso País....'Gigante pela própria natureza....Deitado eternamente em berço esplêndido', parece começar a despertar verdadeiramente da letargia que o acometeu por mais de quatro séculos e meio. Otimismo e pessimismo à parte. O realismo se impõe na mudança do modelo pelo qual devem necessariamente se reciclar todos os setores e segmentos da Sociedade Brasileira. A começar pela classe política cuja consciência deve se modificar ascendendo a paradigmas(do grego:paradigmas, modelo) capazes de elevar a imagem de nosso País e melhorar as condições sócio-econômicas de quem nele vive e trabalha dignamente. Porém tal somente será possível quando a consciência se manifestar na vida de cada um e de todos os brasileiros. Principalmente nas mentes mais esclarecidas às quais compete justamente orientar as menos esclarecidas. A Lei Maior reza: o primeiro dever de um homem é instruir-se, e o segundo dever desse homem é instruir seu semelhante. Desta maneira estaremos constantemente melhorando nosso paradigma. Ouso conclamar todos os virtuais leitores que me honram com sua atenção para que doravante sejam o mais meticulosos possíveis na instrução e seleção daquele ou daqueles a quem irão confiar a sua Procuração Representativa, o Voto. Para que, muito em breve, não venhamos a 'chorar sobre o leite derramado'.
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