terça-feira, 30 de março de 2010

FIOS PRATEADOS

Andava eu lá pelas quarenta e duas primaveras e meu esqueleto já contabilizava oito intervenções cirúrgicas e respectivas anestesias gerais. Mais três viriam nos próximos dois decênios. Já me reportei a elas quando relatei o acidente de automóvel em que fui parcialmente feito em pedaços e que a seguir foram emendados e remendados, satisfatoriamente. A última cirurgia foi uma correção de plexo hemorroidário interno. Esta terá sido a pior de todas. A anestesia foi executada desde a cicatriz umbilical para baixo. Dessa maneira me foi possível perceber e acompanhar a perda progressiva da sensibilidade desde as extremidades dos dedos e pés, atingindo pernas, joelhos e coxas. Quando perdi a sensação dos meus atributos sexuais reclamei ao médico cirurgião. Por aquele preço eu preferia ficar com o desconforto causado pela hemorróida. O competente profissional tranquilizou-me, garantindo que tão logo passasse o efeito anestésico tudo voltaria ao normal. Ufa! Ainda bem! Nunca se sabe o que nos espera no futuro, mesmo já se contando seis décadas de peregrinação nesta existência. Alguns instantes após o procedimento médico, eu gradativamente comecei a recobrar a sensibilidade. E também a experimentar a sensação de felicidade por ainda continuar vivo. Nessa oportunidade fiz uma breve retrospectiva e não consegui recordar de já ter vivenciado semelhante sensação nos pós-operatórios anteriores. Deveria existir uma explicação para tais sensações. Longe de pretensões doutrinárias, mas sempre fiel às emanações da consciência, associei a impressão de harmonia haurida naquela oportunidade ao fato de eu andar incursionando na doutrina espírita. A leitura de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, estaria esboçando os primeiros sinais da consciência espiritual sendo despertada, num esqueleto cuja cabeça outrora garbosa por ostentar uma “melena ruana”, agora se inclinando, flagrantemente, ante o peso dos ainda remanescentes “fios de prata”, em franca decadência. Este fenômeno muito conhecido como calvície não é totalmente estranho em minha família. Recordo que minha mãe, quando em idade já avançada, também mostrava sinais dele, embora seja mais comum no sexo masculino. Várias teorias tentam explicar a queda dos cabelos: Hereditariedade, uso prolongado de alguns medicamentos, alimentação cárnea abusivamente gordurosa, uso de sabonetes ou xampus inadequados, águas excessivamente cloradas e/ou mineralizadas, fatores associados ao hormônio sexual testosterona, e perturbações no psiquismo do indivíduo. Especula-se que banhos com água muito quente e demorados, também podem facilitar a queda capilar. Por meu turno, faço o mea culpa, assumindo a responsabilidade por praticar uma parcela de todos esses fatores. E mais algum que nossa vã filosofia ainda não conseguiu comprovar ou catalogar com alguma segurança. Os cabelos certamente são muito importantes, do contrário a mãe-natureza não no-los teria legado como dote, já antes de nascermos. Mais importantes do que esses, contudo, devemos considerar os “fios de prata” que muitos eruditos espíritas conhecem como “Cordões de Prata”. Definidos como apêndices energéticos que interligam o corpo sutil, psicossoma, ou perispírito, ao corpo físico. Desta sucinta noção de anatomia invisível aos olhos da maioria, inclino-me, atrevidamente, a deduzir que, ao fim e cabo, qualquer fator que possa interferir na harmonia dos nobres “'cordões de prata” poderá ser responsável também pela calvície. Esta por sua vez não deve ser entendida como de todo abominável. Antes convém lhe analisemos os estigmas. Se por um lado descaracteriza nossa estampa crânio-facial, por outro nos pode remeter a uma profunda reflexão íntima capaz de influenciar em nossa razão e maneira de nos conduzir frente às vicissitudes da existência. Esta conclusão certamente que reflete também parte de minhas ciosas lucubrações. Jamais será de todo dispensável o joeirarmos essas asserções, pois não temos poder nem pretensão de reter a verdade, mas tão somente nos é dado perscrutar alguns sinais que podem apontar o caminho que conduz a ela. Assim se este enfoque conseguir atingir a consciência de algum leitor, estará contemplando-me com subsídios capazes de fazerem imaginar-me tenha sido inspirado pela Infinita Hierarquia Espiritual Universal que sutilmente nos impele a trabalhar para a elevação da condição humana.

Um comentário:

Pauta Cifrada disse...

o TEXTO ESTÁ CADA VEZ MAIS RICO E FLUIDO... CONGRATULATIONS!