sexta-feira, 27 de novembro de 2009
NACOS DE AFEIÇÃO
sábado, 21 de novembro de 2009
PREDESTINAÇÃO OU LIVRE-ARBÍTRIO .
sábado, 14 de novembro de 2009
O 'ESFREGAÇO'
sábado, 7 de novembro de 2009
A RECONSTRUÇÃO
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
RECUPERANDO A MEMÓRIA
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
NOVOS HORIZONTES
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
VOCAÇÃO ! QUE 'BICHO' É ESSE?
AINDA OS PÉS NO CHÃO...
Novos moradores em uma moradia já velha. Tão logo tomamos pé do que poderíamos melhorar no velho chalé, colocamos mãos a obra. Internamente suprimimos uma parede em “L”. Com essa medida anulamos também o corredor, um espaço, a meu ver, um tanto ocioso, especialmente quando não bem aproveitado, como em nosso caso. Com aproximados três metros de área o tal corredor interligava seis peças (cômodos), sendo elas uma exígua saleta, um quarto razoavelmente dimensionado que adotamos para o casal. Contíguo a este, outro quarto, pouco menor, destinar-se-ia ao herdeiro, que há algum tempo já estava sendo doutrinado para ser independente. Amigos e parentes não estavam muito acostumados a ver rebentos tão verdes separados da matriz. Nosso filho nunca reclamou desse tratamento. Certamente seu atilado espírito já conhecia a importância da independência.
Com a retirada da dita parede em “L”, houve um ganho de espaço. Uma ampla sala de estar visitas surgira no espaço onde antes foram a referida saleta, corredor e um terceiro aposento meio acanhado que ao desaparecer na fusão, cederia seu status de quarto de hóspedes para um quarto menor, ao lado do aposento do herdeiro. Por sinal esse quarto menor comunicava por uma porta com o exterior, a dois passos da porta da garagem. Teria sido um pequeno quarto servindo de corredor nos áureos tempos da moradia. A reforma nos resultou em três quartos na ala direita de entrada na casa. Da cozinha, dessas de campanha, divisava-se a ampla sala de estar visitas e, naturalmente, a porta da frente. Rechaçada para próximo da parede do lado leste, esquerda da entrada na casa, dispomos o conjunto formado por mesa com balcão em fórmica e seis cadeiras estofadas. O televisor em P&B ocupava um canto. A TV em cores ainda não existia. A primeira transmissão viria a acontecer em fevereiro de 1972, a partir de Caxias do Sul, durante a Festa da Uva. Evento presidido pelo então Ministro das telecomunicações Higino Corsetti.
A disposição de poltrona e sofás dividia, virtualmente, a ampla sala em dois ambientes diretamente iluminados por janelas abertas para o sol nascente. A pintura foi racionalizada. Por fora conservaríamos a cor cinza azulada. Por dentro as cores rosa e amarelo-claro davam o tom. Persianas nas janelas administravam a luminosidade do astro-rei. A cozinha, muy ampla, já no primeiro inverno foi contemplada com um fogão em latão esmaltado, alimentado à lenha, e de tal modo instalado que nos aquecia nas glaciais noites e, até dias, invernais. Com este cenário, montado no início, somado à troca de toda a instalação elétrica e remoção de alguma goteira, passamos a curtir nossa bela vivenda.
O grande desafio era certamente manter a parte do terreno que não tinha árvores frutíferas. O mato tomava conta. Eu não tinha disponibilidade nem condições de o manter limpo. Algumas vezes os irmãos Dartagnan e Mestre Padeiro foram capinar e fazer a limpeza. Não aceitei incomodá-los mais vezes. Até por que eles tinham a vida deles para tocar, também. Passado algum tempo já nem recordávamos mais do moderno apê que nos havia acolhido por um curto lapso de tempo. Não deveríamos ignorar, entretanto, que o referido apê tivera participação direta na aquisição de nossa “chacarola”. E por que não admitir que ajudara a nos proporcionar, agora, o que não lhe era atribuição maior. Graças a economia feita com ele, estávamos agora com os pés no chão e já começávamos a olhar o futuro.
Alguns amigos continuaram nos prestigiando e vice-versa. Destaco entre esses o casal Juraci e Ricardo Ziebner. Não será demais parodiá-los como o casamento da "fome com a vontade de vender". Ele certamente foi o mais completo vendedor de medicamentos que conheci. Não era “atochador”. Efetivamente, vendia no consultório, persuadindo o médico a receitar o medicamento que representava. Na farmácia formalizava a transação ao anotar o pedido, que o droguista ou farmacista apenas chancelava com a assinatura. Tributo-lhes a maior amizade e consideração. Sua esposa, Juraci não lhe ficava na sombra. Era dinâmica, competente e brilhante supervisora da Christian Gray perfumes e cosméticos. Éramos e continuamos amigos, em que pese a irreverência do seu “grande esposo”. Pois o “xirú” era avantajado na estatura e nas ações. Ela “enxergava longe” e por várias vezes convidou minha esposa para integrar seu quadro de promotoras de vendas. Nosso menino, ainda muito pequeno, não podia prescindir da mãe. Mais tarde, ela acabou aceitando e até levava o Tigrinho junto nas freguesas mais próximas. Afinal uns cobres extras auxiliariam no fluxo de nosso caixa um tanto assoberbado com todas as despesas que tínhamos.
Depois que me livrei do último gesso continuei por bom tempo fazendo fisioterapia. A perícia médica não me avaliando com condições de retornar ao antigo trabalho foi me deixando de “molho” até quando possível. Com o auxílio-doença nos mantínhamos. Eu ia e retornava duas vezes por dia à faculdade, campus de Camobi, distante cerca de quinze quilômetros de nossa casa. Em determinadas épocas eu tinha aulas à noite, no centro da cidade. O grande desafio era tentar pegar o transporte oficial gratuito, em ônibus da própria Universidade. No inverno tinha que sair de casa às cinco da madrugada para garantir um lugar no transporte oficial, e economizar as escassas divisas. Ao meio-dia era outra maratona para vir almoçar em casa. Vasculhando no DAE-Departamento de Assuntos Estudantis, descobri a possibilidade de contrair um empréstimo no valor de oitenta por cento do salário mínimo. Precisava de um fiador confiável. Apelei para um ex-colega vendedor, agora professor, que prontamente garantiu o aporte de recursos que, definitivamente, me garantiu concluir o curso. Tão logo comecei a trabalhar, depois de formado, resgatei todas as promissórias do empréstimo rotativo. Na oportunidade recebi uma declaração que soou como elogio. Eu era um dos poucos que voltava para pagar o empréstimo estudantil, rotativo. Mas como não iria pagar. Passar por “caloteiro” e ainda deixar “empenhado” meu amigo e professor Lauro Carlos Kolling, brilhante e competente médico pediatra na UFSM.
As coisas se iam serenando a passos de tartaruga. Com redobrado esforço, eu aplicava-me ao estudo. Concomitantemente, meu filho também já ia à escola. Mais precisamente ao Jardim de Infância, creio que hoje é o pré-escolar. Sua mãe o deixava na escolinha, depois de meia-maratona desde nossa casa. Fazia suas entregas ou vendas, e no final do turno o apanhava novamente no Colégio Olavo Bilac. Nessa mesma instituição havíamos estudado e nos conhecido.Uma década depois nosso filho aí iniciava sua trajetória vitoriosa, com a Graça Divina. Às vezes coincidia de eu não ter aula. Deixava-me ficar em casa estudando e controlando “o ferinha” para que Minha Regina tivesse mais tranquilidade para trabalhar. Nessas oportunidades seu espírito infantil irrequieto, volta e meia, aprontava alguma novidade. Certa vez ao explorar o mato no fundo do quintal, de lá apareceu com a camiseta carregada de ovos de uma galinha “baguala”. “Olha aqui o que eu achei'', disse, transbordante de felicidade. Sugeri à Minha Regina que entregássemos ao vizinho da direita, “seu” Nicácio Mendes. O menino não gostou da idéia. Afinal ele achara em nossa propriedade. Além do mais outro vizinho, “seu” João, morador no fundo do terreno à esquerda, também tinha penosas. Diante dessas dúvidas assumiríamos o risco e não desmancharíamos a alegria do inocente explorador.
Noutra oportunidade quase me matou do coração. Creio que foi quando, definitivamente, concluí não ser cardiopata. Eu estava estudando para as provas que sempre eram uma guerra para mim. Afinal havia prometido ao colega e amigo Valter Antônio Bianchini, do Egrégio Conselho Universitário da UFSM, que acabaria o curso no tempo regulamentar. Não desapontá-lo-ia de maneira alguma. Em tais ocasiões, indevidamente, eu encerrava-me por dias e noites seguidos estudando para as provas. O sono era espantado com o velho chimarrão, café preto forte, coca-cola e Reactivan, cuja aquisição ainda era livre, naqueles dias. Mergulhado em meio aos hormônios e vitaminas que seriam exigidos em prova decisiva no dia seguinte, súbito, um berreiro desesperado e angustiado me fez saltar da cadeira:
-''Paaaiiii... Me socó-e... Tô tooooodo pebado... Acho que vô moê!!!"
De um salto já estava na porta da cozinha, quando deparei com o meu “ferinha” com o rosto, mãos e roupas, todo ensanguentado. Arranquei serenidade não sei de onde. Certamente dos Arcanjos e Anjos da Guarda. O dia estava quente, como é normal em Santa Maria. Tomei-o nos braços, coloquei-o no tanque de lavar roupas e abri a torneira para lavar a sangueira em água corrente. Imediatamente verifiquei que o ferimento não era muito grande nem profundo. Estanquei com o dedo premido sobre o 'naco' de epiderme ferida, modelado em “V” grosseiro, e gradativamente a hemorragia parou. Lavei com Timerosal e prensei com compressa de gaze fixada com curativo pronticura (band-aid).
Ia colocá-lo em repouso quando deparei com a vizinha da esquerda de nossa casa. Estava muito pálida, embora fosse enfermeira. Assustada ainda, prontificou-se a ajudar no curativo, que lhe mostrei já estar resolvido. Então ela relatou como ocorrera o acidente. O “ferinha” estava brincando com suas crianças, da mesma faixa de idade. Em dado momento decidiu escalar um tronco de goiabeira. Escorregou numa forqueta da árvore, que é muito lisa, e despencou batendo com a testa no canto de uma lasca de pedra, tipo cascalho, que estava na terra solta em baixo da planta. Na ausência de outra versão, o assunto ficou encerrado. O ferimento cicatrizou rapidamente e nem sinal restou.
Era muito solidário comigo. Bastava ver-me empunhar uma enxada ou pá e queria ajudar. Gremista fanático. Por vezes ficava bom tempo conversando sobre futebol com outro vizinho que morava na casa da frente, no mesmo lado do sol nascente. Por sinal, esse vizinho, um jovem muito espiritualizado, certa vez levou-me ao centro espírita São Sebastião, onde um médium prescreveu-me Memoriol B-6 para minha falta de memória. Acertou em cheio. Nunca mais fui nocauteado na faculdade. Esse vizinho era muito nosso amigo. Dr. Francisco Colvero, apelido Kiko. Formou-se em Medicina Veterinária na mesma época em que eu me graduei em Farmácia. Estudamos juntos um semestre no curso básico integrado. Fui em sua festa de formatura. Deus o ilumine e guarde onde estiver. Tentarei rememorar mais amizades e façanhas do explorador, valente e conquistador Don Juan, na sequência.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
PÉS NO CHÃO E OLHOS NO FUTURO
Desde jovem agrada-me, sobremaneira, ouvir a conversa das pessoas mais experientes, contanto que comedidas. Com o tempo até conseguia alimentar algum assunto com pessoas de mais idade. E algumas até me davam corda. Desnecessário dizer que assim sentia-me orgulhoso e valorizado perante os demais jovens de minhas relações. Não era melhor nem pior, apenas diferente em relação à maioria deles. Não sei por que “cargas d'água”, eu desenvolvi tal preferência. Até as namoradas eram de mesma idade ou até mais “responsáveis”. Raramente me interessei pelas menininhas. É como se eu fosse um tanto prematuro.
Assim foi, que lá pelas tantas, surpreendi-me formatando uma máxima que levaria pra o resto de meus dias. Afirmava pra mim mesmo que deveria fazer o máximo enquanto era jovem. Se algo saísse errado ou levasse um tombo, bastaria levantar, bater a poeira e reiniciar tudo de novo. Imaginava que depois de “maduro” ficaria tudo mais difícil. Esse pensamento certamente movia-me aos vinte e nove anos de idade. Foi nessa época que mudamos para um chalé singelo afastado cerca de dez quarteirões do centro, onde até então vivera com minha pequena família. O prédio ainda revelava vestígios de alguma suntuosidade de um tempo algo distante. Fachada alta protegendo uma ampla área com soberbas colunas em alvenaria e piso já carecendo de restauração. Paredes de tábuas machambradas, em madeira de pinho, bem conservadas. Cobertura com telhas francesas, de barro, seguindo um modelo clássico de quatro águas mais o expoente cobrindo a referida área. Ao fundo, o prédio era construído em alvenaria de tijolos duplos rebocado de forma um tanto rústica. Porta da frente de ótima madeira de lei, com vidro e grade metálica a guisa de proteção. As janelas em razoável estado de conservação com vidros e venezianas. A porta dos fundos estava pedindo manutenção na fechadura, para melhorar a segurança. Contíguo à cozinha ficava só o banheiro incompleto, sem privada. O WC distanciava uns 5 metros, embaixo da caixa d'água, por trás de um galpãozinho que servia de garagem e outras serventias. Dois portões davam acesso ao galpão e a área da frente da casa. Na frente ainda permaneciam alguns gladíolos em meio a dois ciprestes baixos. Ao lado, a esquerda de quem chegava, três pés de Primavera, em linha. Um pé de mimos-de-vênus, roseiras e margaridas completavam o outrora belo jardim. Ao lado da garagem um Ipê amarelo, tendo em baixo um velho poço d'água desativado. Na frente da garagem era gramado irregular.
O terreno era todo cercado com tela de arame. Na frente junto à entrada pra garagem um pé de “unhas-de-gato” completava o cenário. Ao fundo ficavam diversas árvores frutíferas: Macieiras, pereiras, laranjeiras, mamoeiros, limoeiros, bergamoteira, goiabeiras e uma pequena videira parcialmente encoberta por um caquizeiro e ladeada por uma ameixeira amarela, por sinal muy dulce. Tinha mais. Uma touceira de Vime, um butiazeiro molar, um pé de angico e taquareiras ao fundo, completavam nossa chácara, cujo terreno, equivalente a dois, media em torno de 900 metros quadrados. Nesta singela e edênica chacrinha, certamente vivi muitos dos melhores dias de minha vida, juntamente com meus amados filho e esposa.
Muita coisa exigia manutenção ou restauração. Apesar do braço engessado consegui pintar a parte de madeira da casa. A de alvenaria era pintada de azulão já desbotado, deixei ficar assim. Logo reiniciaram as aulas na faculdade. Tomavam todo meu tempo. E ainda tinha que fazer fisioterapia e revisão no braço direito que não consolidara, devido minhas imprudentes atividades na moradia, certamente. Todos os familiares sabiam disso. Aos médicos, jamais falei coisa alguma. Certo é que vivemos momentos muito gratificantes no pomposo chalé. Tentarei recordar alguns no próximo relato.
COM OS PÉS NO CHÃO
A Natureza é mesmo esplendorosa em todas as suas manifestações. Como a capacidade humana para percebê-las é individual, limitada e circunstancial, na maioria das vezes podem parecer-nos manifestações do acaso. Não entro na fileira dos que apresentam o acaso como bode expiatório para eventual situação desfavorável. Necessariamente teria que admitir que uma situação favorável, também seria fruto acidental. E minha consciência, burilada por quase seis décadas, como se comportaria? Forçoso me é reportar à idade de sete anos quando recebi a enxadinha com cabo de guajuvira. Era um regalo impregnado de segundas intenções. De primeiras intenções também, tanto que até me alegrou. Um tipo de alegria só experimentado por quem fora guri nas circunstâncias da época. Não será necessário identificar as segundas intenções, por óbvio, creio.
Certamente que era a maneira de iniciar os pequenos humanos nas lides que lhe iam assegurar a subsistência futura e de sua descendência, garantindo a perpetuação da espécie. Esse costume vinha de tempos primevos, quando os ancestrais sentiram escassez de frutos, pesca e caça. Era a Natureza, paulatina e sutil com suas leis, preparando o homem para conviver harmoniosamente com a mãe terra. Claro que em dado momento a população aumentou e com ela o consumo. Foi necessário produzir mais. Surgiram a ganância e a concorrência desleal; e os homens começaram a se desentender. Assim visto não me parece obra do acaso. Entendo como conseqüência. Mas esta por si só não existe. Ela “é” ou “existe” por ou perante a Causa. É a lei de Causa-Conseqüência ou Causa-efeito. Lei Maior Cósmica que rege todas as demais que disciplinam o macro e o microcosmo.
Minha família era um pequeno mundo onde cada um de nós teria de interagir com os outros dois, buscando assegurar a harmonia e o bem estar do todo. Muitas noites de insônia, preocupados com o futuro na nova moradia. A sorte fora lançada. A transferência do alto apartamento para a casa térrea foi finalmente realizada, rodeada de muitas controvérsias. O apê era mais seguro contra criminosos, mas inseguro para o menino, naquela idade. Ele tinha já aprontado para sua mãe que milagrosamente o segurou pelos pezinhos, tendo metade do corpo pra fora da sacada do quarto andar! Nessa época ela já acusava os efeitos da deficiência auditiva, decorrente da severa, e já referida, antibioticoterapia. A casa não apresentaria esse problema. Outros talvez. O tempo mostrou mais acertos em nossa decisão. Não era nem arremedo de chalé suíço, mas nos acolheu e agasalhou por cerca de cinco belos anos. Fará por merecer uma descrição mais demorada, brevemente. Por oportuno, lembrarei que eu continuava com gesso no braço direito e parte do braço esquerdo. O capacete de gesso e as amarras nos “queixos” tinham sido removidos. Eu passava o tempo todo mascando goma para recuperar os movimentos mastigatórios. Até há pouco tempo, eu ainda surpreendia os menos avisados com o ruído dos maxilares se ajustando nos encaixes dos ossos crânio-cefálicos.
A despacito fui abolindo os acessórios corretivos. A cânula inox da traquéia foi removida mais tarde. Não afetou muito minha voz de taquara rachada. Também espero não ter que cantar mais nada nem ninguém. Ah! Afugentei alguns amigos com a “mudança pra pior”. Conservei alguns menos exigentes. Outros comentaram com seus pares que acreditavam ter eu “abilolado”. Conclusão a que chegaram ao me verem caminhando meio “derreado”, mascando chiclete e massageando uma bolinha de tênis. Por sinal, esta ficou mais careca do que estou agora. Tinha deixado desenvolver uma barbicha que lembrava o Salsicha, companheiro do Scooby-Doo.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
AINDA OS AMIGOS!
Desde criança ouço certas sentenças de caráter prático e popular, expressas de maneira resumida, mas geralmente ricas em significado. São os adágios ou provérbios, do domínio de determinado grupo social. Um deles sentencia que “Deus quando tira os dentes alarga a goela”. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Em momento algum tive a solidão como única companheira. Deus me dera amigos para compensar os poucos familiares em condições de me cuidar. Dei muito trabalho para meus amigos. Minha esposa raramente se afastava do meu lado, e quando era imperioso ausentar-se, deixava sua mãe me cuidando. Por vezes ficava também minha mãe, que já doente, não podia fazer muito mais que orar. E como suas orações foram ouvidas!
Nos primeiros dias após o acidente fiquei enfaixado, parecendo mais uma múmia. No meu âmago eu também me sentia assim. Esqueci de dizer que meu maxilar inferior fraturou em oito pedaços. A equipe médica que me socorreu, conseguiu “acolherá-los” com fio de aço e fixá-los no lugar. O conjunto foi amarrado com o mesmo fio ao maxilar superior. Por sorte este estava íntegro. Mas o osso malar ou zigomático sofrera afundamento. Na plástica me recuperaram o dito cujo. Minha cara estava de tal maneira deformada que meu incansável amigo de Cacequi, agora brilhante médico, não me reconheceu. Ao sair da sala cirúrgica, no corredor, deparou com Minha Regina em prantos. Quis saber o motivo. Quando ela lhe disse que o acidentado era o Rapa-do-Tacho, ele ficou perplexo, por não ter me identificado. Saudoso amigo que deve estar sendo muito útil no nível espiritual a que a Inteligência Universal o guindou. Doutor José Hamiltom Acosta exerceu a medicina como um sacerdócio. Deus o tenha.
Remendado daquela maneira e com as mandíbulas imobilizadas passei a ser alimentado por sonda nasogástrica. Concomitantemente, fizeram uma traqueostomia, um buraco em minha traquéia, por onde introduziram uma cânula de aço inox para drenar secreções e resíduos gástricos. Esse procedimento me protegeria de contrair uma pneumonia. Suportei-o por cerca de seis meses! Com o tempo até conseguia articular algumas palavras, bastando ocluir o orifício externo da cânula com o dedo. Eu me comunicava por fonemas bilabiais e linguodentais. A cânula acabou por deixar muito delgado o epitélio da minha traquéia. Sinto as conseqüências até hoje, com as mudanças no clima ou com a poluição do ar. A alimentação era através de uma sonda que passava num vão criado pela retirada de um dente da arcada superior. Submetido a regime compulsório de alimentação líquida, despenquei dezessete quilos. Só fui recuperá-los depois de graduado em farmácia, à custa de churrasco de chibo uruguayo. Entonces obtive a comprovação do ditado popular. No lugar dos dentes perdidos a gengiva enrijeceu e o esôfago ficou mais calibroso, para compensar. Quando o inchaço diminuiu, as faixas e ataduras cederam lugar ao gesso. Capacete e mangas de gesso deixaram-me com aspecto de astronauta. Fazia o maior sucesso na rua. Foi o verão mais escaldante de que me recordo. A par desse desconforto deveria enfrentar 72 degraus para chegar ao nosso apê, no quarto andar. Alguns meses depois é que mudaríamos para o chalé com pomar, de que guardo belos recuerdos e dos quais me ocuparei a seguir.
Antes, porém, cumpre-me registrar mais um infortúnio. O falecimento prematuro de meu cunhado, com apenas dezessete anos. Vítima de possível edema cerebral agudo. O menino, irmão mais moço de minha esposa, não teve a mesma sorte que eu. Quando apresentou os primeiros sinais, na primeira hora da tarde, foi internado no hospital e chamado o médico neurologista por reiteradas vezes. Quando por fim apareceu já era tarde. Foi fulminante. Ficou cianótico. Estive sempre à sua cabeceira. Éramos muito amigos. Conversávamos sobre o vestibular que nos próximos dias ele faria para a faculdade de Engenharia. Tive que me afastar para ir atrás do médico do qual me desencontrei. Quando retornei, o desatento e desumano profissional estava ao lado do menino, já sem vida. Atestou “tétano”, como a causa da morte. Discutimos. Lembrei-o que os sinais de tétano me eram conhecidos, vez que por vários anos eu trabalhara com soros e vacinas contra as toxinas da bactéria causadora do mal. Além do mais se tivesse sido pronta e oportunamente socorrido ele não necessitaria inventar diagnóstico. Os demais familiares não fizeram muita carga e, infelizmente, mais um caso de negligência médica e omissão de socorro, acabava de vitimar um inocente. E ficou por isso mesmo. Impune. Enfim, hoje creio que chegara a hora do menino. Enquanto eu, pecador, me restabelecia. Graças à competência, seriedade e honestidade profissional de um médico que sequer identificara o seu paciente. A máxima Cristã “fazer o bem sem olhar a quem” tinha sido praticada à risca.
